domingo, junho 24, 2007

Ponto de referência

A jogar Super Mario no game boy e a deseperar por não conseguir dar cabo do dragão, vencido, o meu pequeno Harry Potter diz:

- Oh Shara, passa-me lá de nivel...
Seis anos depois percebi finalmente que sou uma referência para ele.
Sou aquela que ele chama quando precisa de passar os níveis dificeis!!

segunda-feira, junho 18, 2007

Que boooooommmm!

E se, ás 4 da manhã, durante a sutura de duas feridas do couro cabeludo o doente disser continuamente:

- Ai que bom doutora... que boooooooooooooooooooooom! Sabe mesmo bem!

Não pensem, como eu queria pensar, que são os mestres da anestesia nem peritos em pontos que mais parecem festinhas...
Lamento desiludir mas não são vocês. É o álcool a falar.

Feia menina bonita...

Drenos, pensos, cicatrizes.
Vómitos, melenas, cheiros.
Há alturas assim, em que em vez de querer trabalhar num hospital me apetecia trabalhar numa revista de moda, para não ter de ver só pessoas velhinhas e doentes. A beleza não está na idade dizem. Nem na saúde. E não está, só que há dias em que não consigo ser altruista ao ponto de pensar diferente. É certo que eu aprendo mais com as velhinhas do que elas comigo e é certo que elas, nos seus 70, 80, 90 anos, conseguem ser mais bonitas que eu, aos 25. Por dentro, a grande maioria das pessoas que me rodeiam são milhares de vezes mais bonitas que eu e têm, de uma forma geral, muito para ensinar. Pessoas que não são só envólucro.
Na maior parte dos dias consigo ver isso. Mas, confesso, há dias em que não. E esses dias são os dias em que não chego a casa feliz.

quarta-feira, junho 13, 2007

Ser interna é...

Um ano de médica e cinco meses de trabalho depois, conclui que ser médica interna do ano comum num hospital central é:

1. Andar com uma dor nas costas que simplesmente não pássa porque nunca se consegue ter tempo suficiente para descontrair os músculos das goteiras vertebrais, os dorsais, os lombares e todos os outros que só se percebe que se tem mesmo quando doem (ter uma cama partida também não ajuda muito...)
2. Pedir vinhetas emprestadas
3. Acabar todas as frases com "sim, senhor" ou "sim senhora" e sentir-me um soldado... daqueles rasinhos
4. Sentir que a vida se parece cada vez menos com o Dr. House e cada vez mais mais com o Scrubs
5. Ouvir (até quando?) "a menina parece-se mesmo com a minha neta, não tem nada cara de médica"
6. Ter setecentos livros no bolso
7. Ter, para além dos setecentos livros, uma agendinha para apontar os bancos extra
8. Andar o mês todo á espera de dia 23 para ver se não se esqueceram de contabilizar os tais bancos extra
9. Perceber, dia 23, que se "esqueceram" mesmo
10. Passar tanto tempo no hospital que quase se sente saudades de casa
11. Chegar a casa, não ter ninguém á espera, ter o frigorifico vazio e a cama ainda desfeita... e querer voltar para o hospital
12. Dormir em cima do plano duro das reanimaçãoes (e é duro mesmo!), encostada a uma coluna de som de discoteca ou dormitar na mesa do jantar romântico
13. Cair na gandaia com as enfermeiras
14. Comer pudim feito pelas auxiliares ás 2 da manhã
15. Perder 20 minutos da hora de descanso a correr nos corredores do hospital cheia de medo ás 5 da manhã para chegar ao quartinho e perceber que está ocupado por alguém que ronca como se o mundo fosse acabar
16. Receber um presentinho e um beijinho de um doente
17. Plantar uma orquídea num vasinho para alegrar a sala dos médicos
18. Ter pena de obrigar a coitada da orquídea a ficar na dita sala
19. Ser sempre a última a escolher as férias
20. Ser sempre o número mecanográfico mais recente
21. Não ter tempo para postar nem para navegar nos blogs dos amigos, mas entrar na net só mesmo para "cuscá-los" de vez em quando

Ser interna é assim, andar anestesiada e feliz.

segunda-feira, maio 07, 2007

Quando aqueles que os médicos amam adoecem...

... os médicos não pensam nele como um doente. Não o vêm como o doente do nitrato em perfusão a 4 cc/hora, ou como o bólus de amiodarona. Não o vêm como uma folha de análises com troponinas e cê kápas aumentadas. Quando adoecem aqueles que nós amamos, nós vemos o hospital do lado de fora e as unidades de cuidados intensivos passam a provocar-nos frio na barriga. O desfibrilhador e o ventilador deixam de ser objectos de reanimação e passam a ser sinal de mau augurio. Quando adoecem os que amamos, olhamos para um monitor igual ao que vemos diariamente e simplesmente não entendemos o que vemos. Quando adoecem aqueles que amamos, choramos como qualquer outra pessoa que não entenda que as guidelines e protocolos estão a ser cumpridos e que só o tempo (ou Deus, ou aquilo em que se acredita) pode ajudar. Quando adoecem os que amamos temos ainda mais medo do que alguém que não saiba o que aconteceu, o que está a acontecer e o que acontecerá...
Quando adoecem aqueles que os médicos amam... é tão dificil ser médico.

sábado, abril 28, 2007

Hora do Lanche

A bruxa má a entupir o Harry Potter (de 5 anos) e a Princesa Fiona (de 3) de Panrico e Coca-Cola...
(E a achar que estava a fazer muito bem porque quando tinha a idade deles o sonho da bruxa má era que alguém a deixasse beber Coca-Cola e comer as porcarias que quisesse à vontade...)

O Harry Potter:
- Mas ó Shara, esta comida é saudável?
A bruxa má, sem saber onde se esconder:
- Errrrr... Mais ou menos... Porquê?
Harry Potter:
- Porque este pão não aparece na roda dos alimentos e a Coca-Cola tem corantes e conservantes...
Da próxima vez comem os dois uma maçã envenenada, que é para não fazerem tantas perguntas!

sexta-feira, abril 27, 2007

Agridoce

Quantas pessoas pode ser uma pessoa?

Pode ser-se uma ou várias. Pode ter-se numa pessoa só o mau feitio que te faz gostar de alguém desde o inicio. A honestidade que, de tão honesta, magoa e afasta. A necessidade de ser verdadeiros connosco mesmos que mantém distância. Os principios que fazem não persistir numa coisa ou ideia que se sabe errada apesar de saber bem.
E isso é o que se tem numa pessoa que só é assim porque ser igual a si mesma é a unica pessoa que consegue ser.

Nessa pessoa pode tentar-se mudar muita coisa, mas nunca a sua essência.
Podes querer que ela seja mais que uma pessoa. Podes tentar mudá-la, reconstrui-la. Querer que finja, que guarde, que reprima, que esconda. E se é isso que procuras é isso que vais ter.
Meia pessoa.

É o preço agridoce de manter alguém, não como a pessoa é, mas como se quer que ela seja. Vais ter o que queres, é verdade.

Mas, valerá a pena, assim?