segunda-feira, maio 07, 2007
... os médicos não pensam nele como um doente. Não o vêm como o doente do nitrato em perfusão a 4 cc/hora, ou como o bólus de amiodarona. Não o vêm como uma folha de análises com troponinas e cê kápas aumentadas. Quando adoecem aqueles que nós amamos, nós vemos o hospital do lado de fora e as unidades de cuidados intensivos passam a provocar-nos frio na barriga. O desfibrilhador e o ventilador deixam de ser objectos de reanimação e passam a ser sinal de mau augurio. Quando adoecem os que amamos, olhamos para um monitor igual ao que vemos diariamente e simplesmente não entendemos o que vemos. Quando adoecem aqueles que amamos, choramos como qualquer outra pessoa que não entenda que as guidelines e protocolos estão a ser cumpridos e que só o tempo (ou Deus, ou aquilo em que se acredita) pode ajudar. Quando adoecem os que amamos temos ainda mais medo do que alguém que não saiba o que aconteceu, o que está a acontecer e o que acontecerá... Quando adoecem aqueles que os médicos amam... é tão dificil ser médico.
sábado, abril 28, 2007
Hora do Lanche
A bruxa má a entupir o Harry Potter (de 5 anos) e a Princesa Fiona (de 3) de Panrico e Coca-Cola...
(E a achar que estava a fazer muito bem porque quando tinha a idade deles o sonho da bruxa má era que alguém a deixasse beber Coca-Cola e comer as porcarias que quisesse à vontade...)
O Harry Potter:
- Mas ó Shara, esta comida é saudável?
A bruxa má, sem saber onde se esconder:
- Errrrr... Mais ou menos... Porquê?
Harry Potter:
- Porque este pão não aparece na roda dos alimentos e a Coca-Cola tem corantes e conservantes...
- Porque este pão não aparece na roda dos alimentos e a Coca-Cola tem corantes e conservantes...
Da próxima vez comem os dois uma maçã envenenada, que é para não fazerem tantas perguntas!
sexta-feira, abril 27, 2007
Agridoce
Quantas pessoas pode ser uma pessoa?
Pode ser-se uma ou várias. Pode ter-se numa pessoa só o mau feitio que te faz gostar de alguém desde o inicio. A honestidade que, de tão honesta, magoa e afasta. A necessidade de ser verdadeiros connosco mesmos que mantém distância. Os principios que fazem não persistir numa coisa ou ideia que se sabe errada apesar de saber bem.
E isso é o que se tem numa pessoa que só é assim porque ser igual a si mesma é a unica pessoa que consegue ser.
E isso é o que se tem numa pessoa que só é assim porque ser igual a si mesma é a unica pessoa que consegue ser.
Nessa pessoa pode tentar-se mudar muita coisa, mas nunca a sua essência.
Podes querer que ela seja mais que uma pessoa. Podes tentar mudá-la, reconstrui-la. Querer que finja, que guarde, que reprima, que esconda. E se é isso que procuras é isso que vais ter.
Podes querer que ela seja mais que uma pessoa. Podes tentar mudá-la, reconstrui-la. Querer que finja, que guarde, que reprima, que esconda. E se é isso que procuras é isso que vais ter.
Meia pessoa.
É o preço agridoce de manter alguém, não como a pessoa é, mas como se quer que ela seja. Vais ter o que queres, é verdade.
Mas, valerá a pena, assim?
sexta-feira, março 30, 2007
Não quero...
Se eu disser que não quero envelhecer... é pecado? Não quero... Não quero dizer coisas sem nexo e ninguem achar graça a isso, não quero não saber onde estou e mesmo que alguém me explique, eu não entender... Não quero ser intoxicada de benzodiazepinas e neurolépticos só para ficar mais calma e não incomodar aqueles que acham que não envelhecem. Não quero ter rugas e pele flácida. E escaras. Não quero que me toquem com luvas. Não quero não me lembrar dos que amo e dos que me amam. Não quero que esses, quando eu for velha, me abandonem e se esqueçam. Não quero que passem por mim e me encontrem com vários acessos venosos periféricos, algaliada, com uma sonda nasogástrica e ventilada... Se envelhecer é isso, então não quero envelhecer.
segunda-feira, março 26, 2007
Lucidez
Na maca do corredor, durante o exame neurológico ao senhor do AVC ...
- Como é que se chama?
- Manuel.
- Então e que dia é hoje?
- 22 de Agosto!
(Antes fosse, antes fosse... 22 de Agosto do ano passado...)
- E quantos anos tem?
- 2!
- Não, senhor Manuel, tem 70 anos... mas não faz mal.
Já numa tentativa final de tentar perceber se o senhor estaria orientado no espaço, pergunto-lhe se sabe onde estamos e quem eu sou.
- Estamos em ValVerde (seja lá onde isso for)... E você... Você é uma mulher espantosa!
Orientado o senhor podia até nem estar, mas lúcido e com bom gosto.... isso estava de certeza!
sexta-feira, março 16, 2007
Cheiro a verão
Não sei se é do cheiro a verão ou das minhas jeans novas... Só sei que os homens estão cada vez piores. E quem tem razão é a Bad. Onde é que estes gajos andam a aprender as abordagens que fazem ás miudas??? I mean... Toda a gente sabe que por esta altura sobe exponencialmente a quantidade de "tschhhhh", "ehhhhh", "pffffffffff", "brmmmmmm", "booooeeeeing" que se ouve por aí ... é normal, já quase aceitamos isso com naturalidade. Mas há cada um... Será que ser giro e ter um descapotável invalida logo a necessidade de ter também algumas técnicas de abordagem razoáveis? Perguntar onde é o Marquês de Pombal resulta sempre... Toda a gente sabe onde é por isso sente-se obrigada a explicar. Essa foi de mestre, reconheço. Perguntar o meu nome já não foi muito a propósito. Até porque por esta altura já estava meia Lisboa a buzinar atrás dele e eu já não conseguia entender quase nada. E perguntar se eu quero boleia até podia ser simpático... se eu não estivesse há 5 minutos a tentar por moedas num parquimetro, enquanto ele não se calava! Se eu quisesse ir a mais algum lado, porque é que teria estacionado o carro e estaria a por moedas no parquimetro??
Se calhar é do sol, queima-lhes os neurónios.
terça-feira, março 13, 2007
Sala de tratamentos
A mãe estava doente. A bebé não. Por isso não podia ficar na pediatria. A mãe, com uma enorme dificuldade respiratória e a sua hemoglobina de 5.9 não podia deixar de ser atendida e não, não tinha ninguém com quem deixar a menina. Foi assim que acabámos com uma bebé de ano e meio dentro da sala de tratamentos de adultos. Foi assim que a sala de tratamentos de adultos cansados e doentes se transformou num enorme playground. A velhinha da maca, com máscara de oxigénio na cara, oximetro no indicador esquerdo e braçadeira para medir a pressão no braço direito que ao chegar não nos respondia arranjou maneira de brincar ao “cu-cuuuuuuuuuuuuu” com a pequenina que se ria ás gargalhadas cada vez que o asmático provocava ainda mais pieira do que aquela que já tinha. Ao contrário das doze horas non-stop de barulho e agitação, nesta sala do serviço de urgência descansou tudo, quando a menina adormeceu ao colo da mãe com uma ampolinha de soro na mão embalada pela música do Noddy cantada pela auxiliar da sala de Raio X e o ti-ti-ti do monitor cardíaco da doente taquicárdica como som de fundo.
É nestas alturas que percebo que apesar do cansaço, da falta de sono e da enorme responsabilidade que me sufoca a cada minuto, faço a única coisa que me poderia fazer feliz…
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